A religião que ameaça o direito democrático

Mediante o cenário político que vivemos hoje, quando vemos, vergonhosamente, ministros religiosos tentando interferir em áreas que não são de sua competência, seguramente acertamos ao afirmarmos que é terminantemente incorreta, para não dizer imoral, a postura de certas igrejas e ministros de apoiarem alguns partidos e/ou candidatos políticos da forma como estão fazendo.

Isto transgride o direito de cidadania quando estes mesmos redutos religiosos, no exercício de suas atribuições, que sabemos serem influentes nos meios sociais, descaradamente pedem votos para um ou outro candidato político. Levando assim seus rebanhos a não exercerem, por sua vez, seu direito de cidadania, cegamente apenas obedecendo aos comandos recebidos.

Com isto assistimos a um assassinato moral. Um aborto coletivo de um direito democrático conquistado com os esforços de tantos ao longo da História. Digo até que quando religiosos levam, com suas práticas amorais ou imorais, seus fiéis a elegerem seus próprios candidatos, estão tentando abortar neles até mesmo a liberdade e a plenitude de vida que Deus garante a todos os Seus filhos.

Nenhuma igreja deveria ter o seu próprio candidato político. Igrejas precisam de sacerdotes conectados com o Eterno e não de políticos conchavados com seus interesses escusos. Se todas as igrejas tiverem seus próprios candidatos e estes, por lástima, forem eleitos isto nos conduzirá a um colapso sócio-político. E este fato vem sendo observado em outras regiões do globo abaladas pelos conflitos armados, segregações e facções oriundas de errôneos e desastrosos posicionamentos religiosos.

Sangue humano tem escorrido pelas páginas da História. Pessoas têm sido mutiladas. Crianças têm se tornado órfãs. Pais têm perdido seus filhos. Nações têm guerreado interna e externamente. Na maioria dos casos, porque a religião, conduzida por líderes pouco interessados no espiritual, tem suscitado nas massas apenas a barbárie.

Estudemos a História, que nos mostra como tudo isto começou de forma tão aparentemente simples. Aprendamos com os erros do passado para não os repetirmos agora. A História grita aos nossos ouvidos nos alertando contra este veneno sócio-político que se dissimula e se dissemina pelas veias de nossa sociedade.

As igrejas não podem ser o elemento que divide ou que subtrai, mas sim o elemento que soma e multiplica fatores proativos e assertivos e a todos conduz a objetivos mais nobres de nossa existência. O argumento de que tal candidato ou partido irá defender os direitos dos crentes agride a própria essência democrática da Política, em sua acepção mais nobre. Políticos devem defender os direitos de todo e qualquer cidadão não importando a que religião pertença, se rico ou pobre, independente de cor, instrução ou sexo, ou de que raça seja.

O que querem com este atual discurso delirante? Por acaso querem afirmar que os tais direitos dos crentes devem sobrepujar os direitos dos demais cidadãos? Isto é correto? Querem afirmar que os crentes, por causa das articulações de seus candidatos eleitos, terão maiores privilégios e benefícios em face de toda a sociedade? Isto é correto? Não. Isto é delírio. É um verdadeiro crime de lesa-democracia. É desconstrução para a formação de uma ditadura religiosa como vemos, diariamente, as tristes e lamentáveis consequências pelos noticiários internacionais.

A proposta perniciosa a que estamos assistindo na atualidade com a impostura de igrejas e ministros, é uma conspiração facciosa que exacerbará o direito de cidadania de uns em detrimento do de outros. Isto seria de uma incoerência absurda, pois os pratos da balança da Justiça e da balança da Democracia não suportam tamanho desiquilíbrio. E quando isto ocorre, as mesmas deixam de existir.

Até mesmo porque a cidadania não precisa ser exacerbada: ela o é pura e simplesmente desde que de fato exista. “Todos os cidadãos são iguais perante a Lei”. E este axioma, conforme está em nossa Carta Magna, é norte certo, é estandarte que não pode ser abalado, pois há de elevar as ações de todos nós, de forma a garantirmos a excelência da vida de todos os seres humanos numa coexistência social pacífica e inclusiva.

E a igreja, na sua constituição eclesiástica e social, faz parte disto e tem responsabilidades claras na construção deste caminho. No ápice da compreensão e exercício de sua missão mais elementar, deve proporcionar, através de seus meios sagrados, a possibilidade da existência de uma “nação santa de Deus”. Não constituiremos uma nação separada para Deus nos tornando antagônicos ao amor, à tolerância, ao perdão e aos demais atributos divinos e sagrados deste mesmo Deus.

Não construiremos nada em nome deste Deus praticando exatamente o que mais agride aos Estatutos Eternos do Divino.

Formemos homens livres e libertos. Respeitemos esta liberdade e nos asseguremos de que a mesma jamais se perderá. Mesmo que o primitivo se levante. Mesmo que o bestial ameace. Mesmo que a escuridão circunde. Não nos esqueçamos: a liberdade dos homens, conforme está na Palavra de Deus, na Declaração dos Direitos Universais do Homem e nas letras das Leis de tantos países, sempre prevalecerá!

 

 

Eder Junio Pinheiro

C.E.M – Comunidade Evangélica Makadesh, em São Paulo, 03 de Outubro de 2012

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