A Igreja Evangélica Brasileira em crise: Uma resposta Judaico-Cristã

Por Igor Miguel

Raízes da crise da Igreja Evangélica na América Latina

Há um consenso quase geral de que a Igreja Evangélica Brasileira passa por uma profunda crise. Há diversos sintomas que indicam isso. Sem dúvida, um dos sintomas detectados tem sido a fragilidade da Igreja Evangélica diante das propostas e dos problemas do mundo moderno. A modernidade caracteriza-se por uma compreensão do mundo e da vida influenciada pelos efeitos culturais do movimento iluminista no século XVII e pelas duas revoluções industriais que se seguiram no século XVIII e XIX. Esses movimentos influenciaram o mundo e proliferaram ideias como:

propriedade privada, direitos individuais, igualitarismo, cientificismo e materialismo.

Nos séculos XX e XXI testemunhou-se crescente consciência de globalização, a fluidez das fronteiras econômicas, a formação de grandes blocos econômicos, como a União Europeia, e o avanço das telecomunicações (TV e Internet); todo esse “desenvolvimento” associado às ideologias dos séculos anteriores deu a luz a um filho:

o consumismo. Se na antiguidade as pessoas consumiam o suficiente, atualmente o consumo está para além das necessidades básicas. Consome-se prazer, diversão, sabores, poder, tempo, intemperança e afeto. Tudo vira mercadoria no mundo chamado neo-liberal, criou-se novas modalidades de consumo e novas modalidades de deuses e ídolos.

Idolatria: a velha inimiga da fé.

Para dar prosseguimento a este texto, é necessário deixar claro o que é idolatria. Basicamente, pode-se definir idolatria como:
todo tipo de adoração ou veneração por alguma(s) coisa(s) ou alguém na criação de Deus que não seja o Criador (Rm 1:23). Portanto, para uma compreensão ampla do termo, é fundamental uma análise de duas palavras chaves: “adoração” e “ídolo”.
 
No pensamento hebraico “adoração” é avodá, palavra que poderia ser traduzida simplesmente como “trabalho”. Desta mesma palavra deriva-se o termo eved que é traduzida corretamente na maioria das bíblias como “servo”. O idólatra é alguém que dedica trabalho, energia e esforço a seu ídolo. Ele entrega sua vida, desperdiça sua força vital e como um operário, investe sua capacidade de trabalho a serviço deste “deus”. O ídolo está para além da estatueta, do objeto ou símbolo de culto. A idolatria não é simplesmente prostrar-se diante de uma imagem. O idólatra é alguém que reduz toda grandeza do Criador a um dos aspectos de sua criação. Quando um homem trabalha e dedica energia para ter riquezas, ele está de alguma forma, lançando sua fé e dedicando seu esforço em algo que ele entende ser a fonte de toda a realidade. Quando um cientista acredita que a ciência tem sempre a resposta para tudo e a solução para todas as coisas, ele confia, lança sua fé no conhecimento científico. Por outro lado, o trabalho, a ciência, a arte, a política, as riquezas, o poder e a natureza são aspectos que fazem parte da criação de Deus. Mas, toda vez que o homem submete sua vida a apenas um ou mais desses aspectos, ele está sujeito a um deus ou na linguagem de Paulo,submete-se a um rudimento escravizante.
 
Quando alguém adora um deus qualquer da fortuna ou da fertilidade, o que está sendo cultuado no final das contas é o dinheiro e o sexo. A pergunta oportuna nesta altura é: Qual tem sido a reação da Igreja Evangélica brasileira diante do neo-paganismo, do culto idólatra que os brasileiros importam de terras capitalistas? Uma resposta sincera? Passividade! A resposta da Igreja aos ídolos Quando se olha para o todo, o que se vê é uma Igreja que perdeu sua força, sua capacidade de responder aos problemas do mundo e que não sabe comunicar-se com a cultura.

No século XXI testemunha-se denominações dobrando-se diante da idolatria e do culto ao bem estar. Os altares antes dedicados à memória da crucificação e que exaltavam o ensino das Escrituras, tornaram-se nichos idólatras, altares pagãos de culto ao ego e à estabilidade financeira. Como constata o sociólogo Max Weber (1864-1920), nos séculos XVI e XVII cristãos reformados-calvinistas como os huguenotes e puritanos revolucionavam o mundo com seu estilo simples e disciplinado de ser2. Tudo isso, porque estavam sob os ensinamentos do reformador francês João Calvino, que naquele tempo fora acusado de judaizante por causa de afirmações como esta:

Nós adoramos o mesmo Deus que os pais da antiguidade adoravam. Nós temos a mesma lei e regra que eles tinham, lei que nos mostra como nos governar de acordo com um andar correto perante Deus. Por este motivo que uma vocação que era considerada santa e legal não pode ser proibida aos cristãos hoje, pois a vocação é a principal parte da vida humana e a parte de maior importância para Deus. Daí que não deveríamos nos negar à vocação da justiça civil, e nem lançar isso para fora da Igreja Cristã. Pois, nosso Senhor ordenou e aprovou isso como algo bom para o povo de Israel e ele indicou tal justiça aos seus mais excelentes servos e profetas
[tradução nossa].

Foi justamente a associação entre lei e vocação que revolucionou a Europa culturalmente. João Calvino foi o único reformador que não abordava lei e graça como aspectos contraditórios, Lutero ao contrário, persistentemente alimentava a noção católica dessa suposta contradição. Durante os séculos XVI-XVIII calvinistas

puritanos, huguenotes, presbiterianos e mais tarde a Igreja Reformada Holandesa, darão prosseguimento a essa revolução religiosa, naturalmente, não isenta de erros, mas sem dúvida o movimento reformado pavimentou o caminho para uma fé cristã sustentada pela graça para a obediência em uma vida ética e diligente que manifeste a glória de Cristo. O avanço da fé reformada e do avivamento ético experimentado entre os Europeus através do calvinismo, provocou o primeiro despertamento espiritual dos EUA que aconteceu entre 1730 e 1740. Este grande despertamento foi responsável pela retomada do que havia de mais virtuoso na cultura americana. Mais tarde houve um afastamento sistemático dos pressupostos pregados pelos pioneiros da fé naquele país.

A Igreja no Brasil é um desenvolvimento tardio do segundo e terceiro avivamento americano.

O primeiro encabeçado por Charles Finney, que aconteceu entre os anos de 1790-1840 e o terceiro resultou no avivamento pentecostal, que aconteceu entre 1850-1900. A segunda onda missionária, que teve o maior impacto no Brasil, é deste período, que apesar do efeito numérico, acabou por transmitir à cristandade brasileira uma modalidade de fé evangélica contaminada pelo

pragmatismo americano. A ênfase em uma espiritualidade individualista e pouco comunitária, principalmente influenciada pelo pietismo de raiz luterana, prepara o terreno para o surgimento do neo-pentecostalismo e do discurso evangélico predominante de que os fins justificam os meios.

Já no início do século XX surge o movimento pentecostal, inaugurado por

William Joseph Seymour (1870-1922), envolvido no famoso Azusa Street Revival(Reavivamento da Rua Azusa) em Los Angeles, Califórnia, em 1906. O pentecostalismo brasileiro tem sua origem na dedicação dos missionários da Assembleia de Deus: Daniel Berg (1884-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933), ambos suecos oriundos dos EUA. A partir desta investida missionária a Igreja Evangélica no Brasil teve um grande impulso em seu crescimento numérico.

O pentecostalismo abriu o caminho para o neo-pentecostalismo, que é uma referência aquelas denominações que se caracterizam pela valorização do

bem estar do ser humano, explorando a prosperidade, a cura divina, as intervenções milagrosas, o sucesso profissional e afetivo. O neo-pentecostalismo desenvolveu-se à sombra do sucesso dos pioneiros do movimento pentecostal.

Teologia da Prosperidade: neo-paganismo evangélico

No Brasil, atualmente o termo evangélico está associado às grandes denominações que exploram justamente o discurso moderno-consumista que fundamenta o sucesso pessoal ao sucesso financeiro. Como consequência, desencadeou-se a publicação de uma série de livros, pregações, estudos e programas televisivos evangélicos que exploravam o tema:

Teologia da Prosperidade ou Evangelho da Prosperidade.

O primeiro homem a desenvolver uma teologia do bem-estar pessoal, foi o americano

Korv Essek William Kenyon (1867-1948) pastor da New Covenant Baptist Church em Spencer, Massachusets, ele foi o responsável pelo movimento conhecido como Word of Faith (Palavra da Fé). Logo depois, sob sua influência, surge o famoso Kenneth Erwin Hagin (1917-2003) que teve grande aceitação no Brasil através do livro O Nome de Jesus e outros. Há investigações sérias que confirmam que Hagin plagiou (para não dizer copiou) palavra por palavra de grande parte das ideias de Korv Kenyon.

O resultado da penetração da teologia da prosperidade foi uma redução da fé a aspectos materiais, uma superficialidade religiosa centrada em sensações e experiências emocionais. As consequências foram as mais terríveis e podem ser sentidas até hoje. Os recentes escândalos no Brasil envolvendo pastores, “apóstolos”, “bispos” e líderes evangélicos associados com desvio de verbas, lavagem de dinheiro e corrupção política, são demonstrações do rumo assustador que a Igreja vem tomando.

Por um outro avivamento Paralelamente ao fracasso de alguns segmentos dentro da Igreja Evangélica, há um movimento interessante no Brasil, que em alguns segmentos começa a ter expressividade.
Algumas iniciativas voltadas para a missão integral, para o desenvolvimento de uma cosmovisão cristã bíblica, a retomada das Escrituras em sua matriz original, a retomada teológica de alguns ensinos dos primeiros reformadores, ações cristãs concretas tendo em vista resolver problemas de natureza social, são ilhas de esperança em um mundo evangélico
ainda tomado pelo culto a mamon.
 
Seguindo os sons desta inquietação, encontra-se o movimento de restauração da Igreja do I Século, que pode ser veículo de algum tipo de resposta plausível para uma Igreja Brasileira em crise, nos seguintes pontos:

a) Retorno radical aos princípios apostólicos do I século.

A

Igreja do I Século sempre foi modelo permanente de uma Igreja fervorosa, comprometida, engajada na transformação do mundo, dedicada ao ensino e à pregação das boas novas. Estes fundamentos não podem ser perdidos. Uma retomada do contexto judaico desta Igreja pode ser de fundamental importância para a reconstituição do cenário teológico e espiritual da Igreja chamada “primitiva”. Um retorno radical significa um retorno às raízes(radicalidade) da fé. Já é  tempo da Igreja lidar com as fontes judaicas que sustentam sua teologia e identidade, sem constrangimentos, judeu-fobia ou antissemitismo.

b) Retomada de uma visão integral de fé, com ênfase na qualidade da espiritualidade.

O movimento da

Igreja do I Século, explora o conceito apostólico de vocação. Alguns crentes reformados também entenderam isso, a presença do remido no mundo após a experiência da regeneração é uma evidência de que o salvo deve fazer algo ainda na história. Esta missão em vida é chamada de vocação. Vocação implica em uma ação integral do salvo, tendo em vista a transformação do mundo, tornando-o digno do retorno de Cristo (II Pe 3:12). Os crentes não são um com o mundo, mas estão presentes nele para transformá-lo com ações reais, engajando-se na transformação da sociedade, da cultura, da educação, da vida familiar, da política, da vida profissional e econômica. O cristão encontrará grande fonte para sua atuação no mundo em fonte Bíblicas como a Torá (pentateuco – lei - instrução). A graça salva o pecador e a Torá qualifica a vida do salvo.                       

c) Visão de redenção completa do homem: âmbito individual, familiar e comunitário.

A visão da

Restauração da Igreja do I Século traduziu-se em um projeto idealizado pelo atual presidente do Ministério Ensinando de Sião – Marcelo M. Guimarães - por Projeto Benyamin (Benjamim), que pressupõe que a restauração dá-se primeiramente em âmbito individual, depois familiar e por fim comunitário (Igreja). Estas são três esferas ou três dimensões da existência do salvo, que precisam ser consideradas no processo de restauração. A restauração não é coletivista, pois respeita o indivíduo, não é individualista, pois valoriza a família e não é provincial, pois considera a vida comunitária. Somente na Igreja (comunidade) pode-se viver a unidade pregada por Cristo, somente lá judeus e gentios podem ser um, formando a família de Deus (Ef 2:17-19).

d) Superação do dualismo lei e graça.

A divisão entre lei e graça, como aspectos opostos, foi um dos mais graves desvios da Igreja. Pois ao fazer isso, desenvolveu uma fé responsável, descomprometida e desobediente. Muitos cristãos sinceros, por má doutrinação, abandonaram uma vida disciplinada e qualificada pelos princípios éticos contidos no chamado Antigo Testamento. Resultado? Tornaram-se insípidos, fracos no testemunho social e com uma vida devorada pela cultura moderna.

A

Torá não tem fins salvíficos. A salvação (vida eterna) é um ato generoso de Deus, que por meio do sacrifício de seu filho Yeshua/Jesus, redimiu o homem do cativeiro da corrupção, da injustiça e o transportou para o Reino de Deus (Cl 1:13). O homem foi salvo para obedecer. Uma vida de desobediência pode ser uma evidência da não-regeneração. Afinal, a salvação é pela graça mediante a fé para as boas obras (Ef 2:10).

A esperança do

Ensinando de Sião é que a Igreja brasileira experimentará um avivamento ético, de retorno à obediência, às boas práticas, a uma vida de testemunho e integridade de acordo com a Palavra de Deus.

e) Identificação com os fundamentos teológicos e culturais de Jerusalém

Na agenda da restauração também está a ideia de que a Igreja precisa voltar para os fundamentos teológicos e culturais de Jerusalém. Jerusalém aqui não se restringe a um local físico, mas ao que ela significa simbolicamente e profeticamente. Esta cidade foi o ponto de partida da Igreja, Paulo subia a esta cidade para prestar relatórios de sua missão entre os gentios (Gl 2:1 e seg.). Foi em Jerusalém que os apóstolos ser reuniram pela primeira vez para decidir o que fazer em relação aos gentios que se converteram ao Senhor (At 15). Foi lá que ocorreu a crucificação, a ressurreição de Cristo e o derramamento do Espírito Santo. Por esses e outros motivos, Jerusalém torna-se símbolo de uma Igreja no palco das profecias, comprometida com as Escrituras e com as promessas que estão sobre aquela cidade. Sabe-se das várias investidas na história para afastar a Igreja de seu fundamento em Jerusalém.
 
Não muito depois, tentaram deslocá-la para Roma. Roma, tornou-se simbolicamente um memorial de rejeição e de abertura passiva da Igreja a algumas ideias gregas, que tardiamente causaram problemas de ordem doutrinária, como a
Teologia da Substituição, o dualismo natureza-graça e o antissemitismo cristão. O retorno a Jerusalém, seria um retorno aos fundamentos vividos e promulgados pelos apóstolos de Jesus Cristo no I Século. Roma, Atenas, como diria Tertualiano: “O que tem Jerusalém com Atenas?” (Tertuliano II-III século d.C.).

f) Releitura de Jesus e dos apóstolos vinculados a sua própria cultura.

Jesus precisa ser lido novamente para este século. Uma compreensão de Jesus dentro de sua própria cultura, a cultura judaica da época do Segundo Templo, pode ser muito positiva, pois enriquece a compreensão de suas palavras naquele contexto. Assim, versículos considerados banais, quando relidos dentro de uma perspectiva hebraica, podem ter implicações muito mais profundas e impactantes para o desenvolvimento da fé e prática da Igreja. O mesmo vale para a leitura das cartas e da ação apostólica no I século desta era.

g) Retorno à Bíblia explorando-a com profundidade, em uma investida interpretativa rigorosa, explorando os originais dos textos sagrados.

Uma das grandes contribuições do movimento de restauração da Igreja do I Século, tem sido um retorno às Escrituras Sagradas em seus originais. Este movimento tem sido pioneiro ao popularizar textos antes vedados a especialistas e acadêmicos. A combinação entre boa interpretação exegética e sensibilidade espiritual do intérprete resulta em uma leitura bíblica elevada. O movimento foi o primeiro a demonstrar as limitações inerentes a uma tradução da Bíblia. Sem questionar a qualidade das versões atuais, descobriu-se as infinitas possibilidades interpretativas quando se leva em consideração os originais da Bíblia.
 
A investida pioneira na área de traduções, provocou em editoras evangélicas brasileiras a preocupação em publicar literaturas como:
À Sombra do Templo de Oscar Skarsaunne, o Novo Testamento Judaico – David Stern (Editora Vida) e o Comentário Judaico do Novo Testamento (Editora Atos) do mesmo autor. Sem mencionar, uma inovação do Ministério Ensinando de Sião, quando publicou pela primeira vez na história um comentário da Torá, sob a perspectiva judaicomessiânica, obra de autoria de Marcelo M. Guimarães.

Conclusão: visão prospectiva

Ao reconciliar

judeus e gentios em Cristo, lei e graça, Igreja e Israel, história e escatologia, o movimento de restauração da Igreja do I Século pode ser um grande aliado da Igreja Evangélica brasileira, que não deve olhar para este movimento com desfavorecimento, mas com sinceridade, como um fenômeno profundamente interessado na reconciliação e não naimposição de práticas judaicas à Igreja. O Ministério Ensinando de Sião, pioneiro no movimento de restauração das raízes judaicas da fé cristã, não tem uma resposta ou uma solução definitiva para os dilemas vividos pela Igreja Evangélica brasileira, mas chama a atenção da liderança cristã em território nacional para o fato de que este ministério vem produzindo com esforço uma teologia honesta que pode fornecer ferramentas importantes para o avanço da fé com qualidade e poder no Espírito Santo. Se o que se precisa no Brasil é de um avivamento ético, muita coisa está sendo produzida por este movimento que pode ser considerada pela Igreja. A vocação do Ensinando de Sião é para o Corpo de Cristo. Modestamente, este ministério convida a Igreja a considerar essa vocação e a se aproximar em parcerias que podem levar a presente Igreja a um estágio muito melhor de testemunho e compromisso com este evangelho que saiu de Jerusalém e chegou até aqui nos confins da terra.

Para a glória do

Messias judeu crucificado e ressurreto: YESHUA (JESUS).

( Ministério Ensinando de Sião www.ensinandodesiao.org.br . Diretor do Centro Avançado de Teologia – Ensinando de Sião (CATES) –www.cates.com.br )